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Richard Zimler é um escritor, jornalista e professor norte-americano, que se mudou para o Porto em 1990. Tem publicados vários romances, contos e livros infantis.

 

Este é o primeiro livro que leio do autor e tem como pano de fundo um gueto judeu da capital da Polónia, no ano de 1940, altura da Segunda Guerra Mundial.

 

Erik Cohen é um velho psiquiatra que, após a ocupação alemã, é obrigado a mudar-se para esta pequena área judaica de Varsóvia e a viver em casa da sua sobrinha Stefa com ela e o seu filho Adam. A certa altura, Erik encontra Heniek e conta-lhe a sua história. Daí nasce então o manuscrito Os Anagramas de Varsóvia, um registo das conversas entre Erik e Heniek, que este último conseguiu perservar até ao final da guerra e posteriormente partilhar com outros. Todos os nomes citados ao longo das suas páginas são anagramas construídos a partir das letras dos verdadeiros, daí o título deste manuscrito.

 

A miséria e a precariedade sentidos naquele gueto são palpáveis. O medo e a incerteza são comuns, mas também encontramos o amor e a esperança, sentimentos que frequentemente testemunhamos ao logo da leitura.

 

Este livro relembra-nos a época do Holocausto de uma forma diferente, uma vez que se trata de um thriller histórico. A componente policial tornou a leitua de um tema tão forte e pesado como o Holocausto numa leitura mais leve e distanciada. A vida dos judeus naquele gueto, o poder dos Nazis ou a indiferença dos polacos está lá, mas de uma forma mais leve do que estamos habituados.

 

No final, e apesar de bem construída, é uma história simples e a resolução do mistério que acompanha a maior arte das páginas não é muito surpreendente. Em suma, posso dizer que gostei, embora não tenha amado.

 

"De pé na escuridão, imaginei que, se oferecesse a minha vida a Deus, talvez ele poupasse alguém que quisesse viver - uma criança, com décadas de vida pela frente. Mas, mesmo que conseguisse covencer o Senhor a fazer esse negócio comigo, como decidir quem merecia mais?"

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Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor, editor, artista plástico, apresentador e cantor Valter Hugo Lemos. É um português nascido em Angola, na cidade de Saurimo. Já ganhou vários prémios, entre eles o de Melhor Romance do Ano, em 2012.

 

Homens Imprudentemente Poéticos é o seu último romance, publicado em 2016 pela Porto Editora. Retrata a história de uma pequena aldeia do Japão antigo e gira em torno da inimizade estabelecida entre dois vizinhos.

 

Ao escrever esta história, o autor visitou o local que mais foca ao longo das suas páginas: Aokigahara, também conhecida como a Floresta dos Suicidas. As estatísticas mostram que neste local se suicidam centenas de pessoas a cada ano, um ato que as autoridades locais tentam desencorajar mas que continua a existir, tornando a floresta no segundo local mais comum no mundo.

 

Os primeiros capítulos destinam-se à apresentação de cada uma das personagens principais. O artesão Ítaro, criador de leques, possui uma habilidade que tanto pode ser considerada conveniente como angustiante - a previsão do futuro. O oleiro Saburo, que vive com a mulher, a senhora Fuyu. A senhora Kame é a criada que já pertence à família, a figura maternal que sofre as dificuldades desta família como se fosse a sua. Matsu, a irmã de Ítaro, uma menina cega que tem uma perceção sensível do mundo e das coisas, vive no meio de sonhos e tem uma enorme gratidão pela vida. 

 

"Para Matsu as montanhas podiam fazer promontórios que se suspendessem sobre as aldeias. Braços de pedra que se levantavam entre as nuvens e sombreavam as aldeias. Explicavam-lhe que os cumes demoravam estações inteiras, podiam caminhar primaveras completas para lhes chegar ao cimo, e talvez nem chegassem, porque os homens faziam outra vida diferente da de poder voar. Mas a jovem imaginava o que ouvia segundo o seu próprio tremendismo, por isso julgava que o lugar mais alto das montanhas era uma extremidade de pedra que se alcandorava, coisa de conflituar com as nuvens e os pássaros maiores. Diferente de serem os homens voadores, ela inventava que seriam as montanhas terras capazes de pairar."

 

Ao longo do livro vamos conhecendo as razões que foram separando os dois vizinhos inimigos ao mesmo tempo que nos deparamos com temas fortes como a morte e o suicidio, o amor e a ausência dele, a perda ou o ódio.

 

É um bom livro, mas infelizmente não consegui que me enchesse as medidas. Foi o primeiro que li do autor e as opiniões que li variam bastante. Várias pessoas acham o melhor de Valter Hugo Mãe, outras acham que foi o pior. Vou ler mais livros da sua obra e formar a minha opinião. Neste livro, fico-me pelas três estrelas, espero atingir mais em leituras futuras.

 

Como curiosidade, vi numa notícia que neste livro o autor não utilizou uma única vez a palavra "não". Deixo a resposta que deu quando questionado sobre o assunto:

"A palavra Não sublinha um traço impróprio no Japão, porque difere da relação cerimoniosa que estabelecem uns com os outros. Os japoneses evitam dizer por norma Não e optam por uma expressão para essa negativa que, traduzida à letra, terá o significado de "isso é difícil". Por isso, várias vezes no romance as personagens respondem deste modo. O que é uma negativa educada, com que dão a entender ao interlocutor que o que lhe é pedido é impossível de fazer, mas sem o hostilizar."

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The Storyteller | Jodi Picoult

por Daniela, em 24.01.18

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Publicado em 2013, e traduzido em Portugal para "A Contadora de Histórias", este livro traz até nós um tema muito triste: o Holocausto. Retrata algumas das muitas coisas que se passaram num campo de concentração específico e, talvez, o mais falado: Auschwitz.

 

É narrado na primeira pessoa pela voz de quatro personagens e engloba dois tempos distintos: o passado e o presente.

 

Sage é uma mulher de 25 anos, padeira de profissão e adora o que faz. Tem uma auto-estima muito baixa devido a um acidente do qual fez parte e que acabou por lhe deixar uma cicatriz na cara. É a voz do presente, do que se passa atualmente.

 

Leo fala também no presente. Trabalha no FBI e faz parte das suas funções perseguir e condenar ex-soldados nazis.

 

Josef é um nonagenário e ex-soldado das SS, que conta do seu ponto de vista como era a vida dos soldados, falando de assuntos como as seleções que eram feitas antes de lhes serem atribuídos os cargos.

 

Minka é a voz do passado, a voz dos horrores vividos antes e durante Auschwitz, uma mulher judia e uma sobrevivente do Holocausto. É também a avó de Sage.

 

"On that day I had also noticed a new sign on the restaurant. Psy i Żydzi nie pozwolone. No dogs or Jews allowed."

 

A pesquisa para este livro foi muito bem feita, os pormenores históricos são contados de forma muito real. Adorei os capítulos da personagem Minka, as partes passadas em Auschwitz, as descrições e a história que se vai desenrolando. É de ficar com o coração apertado.

 

Faz-nos refletir. É essencialmente um livro sobre perdão e sobre a nossa capacidade de perdoar os outros ou de nos perdoarmos a nós próprios. Por muito que leiamos sobre o tema, ou que assistamos a documentários, há sempre espaço para o choque e a tristeza que nos invadem ao depararmo-nos mais uma vez com este tema. Tal crueldade humana vai sempre surpreender e ser difícil, se não impossível, de compreender.

 

As histórias são várias, umas dentro das outras. A história passada no presente, algumas partes da vida da Sage ou do Leo não gostei tanto. Nem consegui simpatizar com o Leo, apesar de ter gostado da Sage. Há uma outra história da qual também gostei, que é aquela que a Minka inventa e escreve e sonha partilhar.

 

O twist final que a autora deciciu dar também não me agradou particularmente e acabou por ser um pouco previsível.

 

Talvez para primeira leitura da Jodi seja um livro de cinco estrelas, mas após várias leituras chegamos à conclusão que a fórmula não varia muito de livro para livro. Teria gostado mais se a autora se focasse mais nas memórias da Minka e do Josef.

 

Deixo um excerto do qual gostei e que partilho agora convosco:

 

"In Heaven and Hell, people sit at banquet tables filled with amazing food, but no one could bend their elbows. In Hell, everyone starves because they can't feed themselves. In Heaven, everyone's stuffed, because they don't have to bend their elbows to feed each other."

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Eça de Queirós é um dos mais importantes e conhecidos nomes da literatura portuguesa. A sua obra mais conhecida e aclamada é Os Maias, publicada em 1888.

 

Do escritor, apenas tinha lido O Crime do Padre Amaro e gostei da crítica que encontrei. A Ilustre Casa de Ramires é então o segundo livro que leio do autor e não gostei tanto. Publicada em 1900. Foi escrito de forma paralela, ou seja, existem várias histórias a decorrer ao mesmo tempo.

 

Temos por um lado a história de Gonçalo Mendes Ramires, um fidalgo pertencente a uma das linhagens mais antigas, uma família nobre e cheia de tradições, que ambiciona entrar na política e fazer carreira, passada no século XIX. À medida que vai conseguindo atingir este objetivo, vê-se envolto numa série de dúvidas acerca da sua honra e honestidade, que poderão pôr em causa tudo aquilo que a sua família sempre defendeu.

 

Por outro lado, temos uma história escrita pelo nosso protagonista Gonçalinho, acerca dos seus antepassados, passada no século XIII. O protagonista aqui é Tructesindo Ramires, um homem que procura vingança pela morte do seu filho morto em uma emboscada por um suposto amigo da família.

 

As personagens são personificações reais e adequadas à altura. Atuais, ainda nos dias de hoje.

O Gonçalinho, o fidalgo empobrecido que quer ser superior mas por outro lado mostra-se fraco e de caráter muito débil.

A Gracinha, pequenina e frágil, pele clara e cabelos negros compridos. Frágil e passiva, deixa-se seduzir facilmente.

André Cavaleiro, o Dom Juan da zona. Bem educado, de cabelos ondulados e bigodes fartos. Seduz Gracinha, já depois de casada.

As irmãs Lousadas, a personificação de duas coscuvilheiras da aldeia, como todos certamente conhecem.

"Secas, escuras e gariulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas."

 

O início do livro é bastante aborrecido, fala das conquistas dos antigos Ramires e é difícil de passar. Depois a história começa a fluir melhor. Álem destas primeiras partes, a história de Tructesindo também é difícil de passar e, no meu entender, não acrecenta grande coisa ao livro. Sempre que Gonçalo começa a narrar a história dos seus antepassados, é necessário estar muito atento à leitura para perceber a diferença, caso contrário acabamos por nos baralhar e ter de voltar atrás, como me aconteceu várias vezes.

 

Não seria a minha primeira recomendação para primeira leitura de Eça, gostei mais de O Crime do Padre Amaro. Mas para quem quer completar a obra de Eça, avancem sem medos. Já sabem, as primeiras páginas custam a passar, por isso nada de desistir.

 

Deixo algumas fotografias do encontro do Clube dos Clássicos Vivos que aconteceu em Leiria no dia 13 de Janeiro, para discutir esta obra:

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5 Contos | Projeto Grimm

por Daniela, em 29.12.17

Os primeiros cinco contos já foram lidos. Gostei mais de uns do que de outros, alguns têm finais felizes e outros têm finais tristes, mas todos têm uma certa dose de magia. No final de cada conto, existem notas que enumeram as alterações que cada um foi sofrendo e as variações de cada tradução.

 

O Rei dos Sapos, ou Henrique-de-Ferro

Conta a história de uma princesa mimada que brincava perto de um rio atirando uma bola de ouro ao ar. Um dia a bola cai na água e afunda-se, o que deixa a princesa muito triste. Aparece um sapo que se oferece para a ir buscar em troca de uma série de favores.

 

Neste caso, e ao contrário do que estamos habituados, não é necessário praticar apenas boas ações para atingir o tão famoso "e viveram felizes para sempre".

 

A União do Gato e do Rato

Fala-nos de um gato e de um rato que decidiram viver juntos. Para se precaverem contra o inverno, arranjam um pote de banha que escondem na igreja para utilizarem quando acabarem as restantes provisões. No entanto, nem tudo corre como planeado.

 

Talvez existam animais que não nasceram para se relacionar. Nas notas do final do conto, ficamos a saber que existem variações das personagens deste, como por exemplo a raposa e o galo, entre outros.

 

A Filha de Maria

Traz-nos a história de uma menina que nasceu no seio de uma família pobre. Um dia, para ajudar esta família, a Virgem Maria desce do céu e oferece-se para tomar conta da menina. Lá em cima, a criança depara-se com várias portas e é prevenida de que existe uma que não pode abrir em situação alguma.

 

Figurativamente, "a curiosidade matou o gato" aplica-se. Afinal, quando dizemos às crianças para não fazerem alguma coisa, já se sabe o que elas fazem. Fala também de pecado e de como quem mente é castigado e quem se arrepende pode ser perdoado.

 

Conto do Rapaz que Fugiu para Aprender a Ter Medo

Este conto traz-nos a história do conhecido João Sem-Medo. Eu confesso que já tinha ouvido falar da personagem, mas não conhecia a sua história.

 

João é um rapaz que não sabe o que é ter medo. Ao longo do conto são-lhe apresentados vários testes de coragem com o intuito de lho causar.

 

O conto tem várias versões e estes testes de coragem também podem variar consoante as traduções.

 

O Lobo e os Sete Cabritinhos

Sete cabritinhos ficam sozinhos em casa enquanto a velha cabra sai para a floresta à procura de comida. Antes de sair, avisa os cabritinhos para terem cuidado com o lobo e ensina-lhes algumas formas de o reconhecer caso ele se tente disfarçar.

 

Este já conhecia superficialmente. Fala da aflição maternal perante o perigo que ameaça os filhos e de como uma mãe sempre fará tudo para os proteger. 

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"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem"

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Memórias das Minhas Putas Tristes é o segundo livro que leio deste autor. Gabriel García Márquez foi um escritor e jornalista Columbiano que faleceu em 2014 com 87 anos, no México. Ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1982 e é um dos escritores mais admirados e traduzidos no mundo. A sua obra mais popular é Cem Anos de Solidão.

 

Este livro traz-nos as vivências de um cronista e crítico musical que acaba de fazer noventa anos e decide contar as suas histórias num pequeno livro. Diz-nos que nunca fez sexo sem pagar e quer ter uma noite de amor com uma adolescente virgem para comemorar o seu aniversário.

 

O autor transmite-nos reflexões sobre vários temas. Prostituição e Pedofilia. Solidão. Velhice, Amor e Morte. Um dos temas mais abordados será o amor platónico.

 

Narrado na primeira pessoa, mostrou-me um estilo de escrita que não encontrei no livro que li anteriormente a este, O Amor nos Tempos de Cólera. Ficamos dentro da cabeça do protagonista, tão próximos dele que sabemos na perfeição tudo o que ele está a sentir.

 

Senti no início alguma resistência em aceitar o facto de que uma menina de apenas catorze anos podesse eventualmente querer perder a virgindade com um velho de noventa. No entanto, há medida que o tempo passa e a história avança, dei por mim a torcer para que eles ficassem juntos.

 

É uma história de amor e está muito bem escrita. Recomendo a todos este livro que tem pouco mais de cem páginas. Lê-se muito bem e entrei na história muito facilmente.

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Dezanove Minutos, de Jodi Picoult

por Daniela, em 15.12.17

"Quando você não se encaixa, se torna super-humano. Consegue sentir os olhos de todo mundo em você, grudados como velcro. Consegue ouvir um sussurro sobre você a um quilómetro de distância. Até consegue desaparecer, mesmo quando parece que ainda está no mesmo lugar. Consegue gritar e ninguém escuta nada. Você se torna o mutante que caiu no barril de ácido,o Coringa que não consegue tirar a máscara, o homem biônico que não tem membros, mas tem o coração intacto. Você é a coisa que costumava ser normal, mas isso faz tanto tempo que você não consegue lembrar nem como era."

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Jodi Picoult é uma escritora norte-americana, autora de vários livros que vendem por todo o mundo. Tem-me conquistado ao longo deste ano, através do projeto Um ano com a Jodi. As capas dos livros enganam, não são romances cor-de-rosa. São histórias que podem ser reais e que abordam temas atuais e que, na sua maioria, entram em conflito com a ética.

 

Este livro traz-nos a história de Peter Houghton, um rapaz como tantos outros, com o seu próprio jeito de ser. Um rapaz que usa óculos, sem grandes aptidões para o desporto e com uma mãe protetora. Um rapaz que é intimado, gozado e posto de parte diariamente, apenas por ser quem é.

 

"Dá para sentir as pessoas olhando fixamente; é como o calor que sobe do asfalto durante o verão, como uma cutucada nas costelas. Você não precisa ouvir um sussurro para saber que é sobre você. Eu costumava parar em frente ao espelho do banheiro para ver o que eles ficavam olhando. Queria saber o que fazia a cabeça das pessoas se virar, o que eu tinha que era tão incrivelmente diferente. A princípio, não consegui identificar. Quer dizer, era apenas eu. Mas aí, um dia, quando me olhei no espelho, eu entendi. Olhei em meus próprios olhos e me odiei, talvez tanto quanto todos eles. Foi o dia em que comecei a acreditar que talvez eles estivessem certos."

 

Peter decide vingar-se e leva para a escola armas que tem escondidas em casa há vários meses. Neste ponto, acontece algo parecido com o massacre de Columbine.

 

 

Ler este livro aperta o coração. Os abusos sofridos por Peter mexeram muito comigo. Simpatizei com ele e revi-me em algumas das situações, voltei ao tempo em que o bullying era frequente na adolescência. Nunca vi ninguém ser espancado, trancado em armários ou preso com a cabeça na sanita. Por outro lado, insultos, empurrões e cuspidelas eram frequentes.

 

Nesta história, Peter arranjou uma forma de acabar com os abusos, mas qual será o impacto na vida dos habitantes de Sterling? Várias outras questões são levantadas durante a leitura. O que implica ser diferente no mundo dos adolescentes? O que acontece se uma vítima tentar ripostar? Alguém tem o direito de julgar outra pessoa? Como lidar com um filho que já não conhecemos? Alguém que conhecemos desde sempre pode tornar-se um estranho em dezanove minutos?

 

Os capítulos são divididos em várias alturas, tendo títulos como Um mês depois ou Dezassete anos antes que se referem à ação principal do livro. Com estas viagens no tempo, Jodi Picoult consegue levar-nos de um passado feliz para um presente caótico em poucos minutos. Acompanhamos a vida de Peter e a forma como esta se foi deteriorando ao longo do tempo.

 

Apesar de o tema principal ser o Bullying, vários outros são abordados. A gravidez na adolescência. O adultério e o não assumir as consequências. A violência no namoro. 

 

As personagens são todas importantes e fulcrais para o desenvolvimento da história. Bem construídas, representam adolescentes que se encontram em qualquer escola e pais que se encontram em qualquer casa.

 

O final é muito bom e leva-nos a pensar em tudo o que se passou ao longo do livro. Revivemos aquilo que lemos nos outros capítulos e conseguimos arranjar motivos. Não foi uma completa surpresa, mas mesmo assim foi bom.

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O Barão de Lavos, de Abel Botelho

por Daniela, em 03.12.17

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Abel Botelho não é um escritor muito conhecido. Português, viveu entre finais do séc. XIX e início do séc. XX. Escreveu vários livros de poesia, peças de teatro e romances, onde se insere O Barão de Lavos.

 

Ouvi falar deste livro recentemente, neste vídeo do Hugo, no canal O Aprendiz de Leitor.

 

Em conjunto com outros quatro, O Barão de Lavos pertence a uma série escrita por Abel Botelho e denominada Patologia Social, a parte da sua obra que representa o Neo-realismo, ou seja, a observação fiel da realidade e caracterização de fenómenos sociais que eram comuns na época. Neste caso, o pano de fundo será Lisboa, a capital de Portugal e cidade de maior prestígio. Os temas predominantes neste conjunto de livros são a homossexualidade, a prostituição, luta da classe proletária, o adultério e a política.

 

Centra-se na história de Sebastião de Castro e Noronha, o nosso protagonista e Barão de Lavos. Excêntrico, nobre e descendente de duas das famílias mais influentes do país, tem a obsessão de encontrar o corpo perfeito e de o desenhar, procurando em zonas apinhadas de gente, como é o caso do circo.

 

"Dezenas de rapazes, de mulheres, de rapariguitas mesmo, tinham vindo àquela casa poisar perante a sua obstinação doentia. Perscrutinava ele na rua uma mulher fácil ou um garoto complacente que lhe parecesse deviam ter aquele desvio anatómico? ... Não os largava enquanto não conseguisse, a impulso de astúcia e de dinheiro, conduzi-los à Rua da Rosa e analisar-lhes a nudez."

 

Assim, encontra Eugénio, um efebo de 15 anos e desprezado pelos pais que dorme em qualquer esquina, com quem inicia uma relação e ao qual arranja uma das suas casas para viver. À medida que o tempo passa, o Barão vai ficando cada vez mais à mercê de Eugénio, que o explora financeiramente e o vai deixando mais pobre a cada dia.

 

Publicado em 1891, este é o primeiro livro da série que referi acima e retrata a homossexualidade e apresenta cenas de pedofilia, embora eu pense que na altura o objetivo do autor era apenas apresentar o primeiro tema, uma vez que os dois eram dissociáveis no séc. XIX. A homossexualidade não é apresentada como sendo natural, mas como uma doença, causada pela situação familiar ou pelas vivências sociais, e que não pode ter outro desfecho além da degeneração e destruição de quem a pratica.

 

Imagino que a publicação desta obra tenha causado grande escândalo no seio da sociedade conservadora da altura, tendo em conta os temas tabu que aborda.

 

Não é um livro recomendado para aqueles que fogem de descrições longas e detalhadas. Muitas aparecem neste volume. No entanto, a história vale a pena, o tom de crítica social encontra-se em cada capítulo. Além disso, é um livro que se encontra facilmente em formato digital, pelo que vale sempre a pena tentar conhecê-lo.

 

Ler os Nossos: um projeto da Cláudia, do blog e canal a mulher que ama livros.

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José Saramago foi o único escritor português galardoado com o Nobel da Literatura, em 1998. Foi merecido. Escreveu vários romances, crónicas, contos e até alguns livros de poesia e contos infantis.

 

As Intermitências da Morte foi o terceiro livro que li do autor, tendo lido já há alguns anos Caim e, mais recentemente, Ensaio Sobre a Cegeira.

 

Este livro fala da morte.

 

"No dia seguinte ninguém morreu."

 

A frase inicial desta obra é um ponto de partida que nos deixa desde logo intrigados. A partir daqui Saramago relata-nos, no seu estilo carregado de ironia e sarcasmo, as reações da sociedade e de quem a governa, da igreja e do clero, dos hospitais, das agencias funerárias e até das seguradoras ao súbito desaparecimento da morte.

 

Várias reflexões podem ser feitas ao longo desta leitura, onde Saramago vai divagando acerca da importância da vida e da morte e da forma como as duas se conjugam.

 

Os moribundos, ou seja, aqueles que não podem morrer mas estão em tal estado que também não têm condições para viver, são constantemente focados. As discussões e problemas que criam para a família e as soluções que acabam por se encontrar são bastante escrutinadas, num tom de crítica social acentuado a cada palavra.

 

Em páginas mais avançadas, as personagens deixam de ser tão subjetivas e passam a ser bem definidas, apesar de nunca termos acesso a um nome próprio. O autor foca aqui a morte e o violoncelista, um personagem fulcral na história.

 

A morte acaba por ser humanizada e igualada a todos nós. Todas nós, pois aqui a morte é representada como uma personagem feminina.

 

A escrita do autor já me era familiar e não passei por aquele característico período de adaptação. A forma como ele escrevia, apenas usando como pontuação alguns pontos finais e muitas vírgulas, poderá não ser adaptada a todos mas, como ele próprio disse uma vez, é a forma como as pessoas falam, a forma como as histórias são contadas.

 

O final do livro é maravilhoso. Se tinha dúvidas entre as quatro e as cinco estrelas, este final dissipou-as de vez.

 

Leiam este livro. Leiam Saramago. Leiam os nossos.

 

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Uma Melodia Inesperada, de Jodi Picoult

por Daniela, em 25.11.17

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Esta foi mais uma leitura para o projeto "Um ano com a Jodi".

 

Zoe Baxter tem apenas um sonho: ser mãe. Os seus problemas de infertilidade, aliados aos dos seu marido, Max Baxter, tornam este sonho difícil de realizar. Após várias tentativas falhadas de fertilização in vitro e vários abortos, Zoe sofre várias desilusões e a tragédia acaba com a pouca felicidade que tinha.

 

Vanessa é psicóloga numa escola. A certa altura, propõe a Zoe trabalhar com uma das alunas, Lucy, que se encontra com uma depressão, após várias tentativas de suicídio.

 

Os temas deste livro são fortes. A moralidade e a ética estão, como sempre, presentes. Temos por um lado a Igreja da Glória Eterna, extremamente conservadora. Por outro lado, temos temas como a homossexualidade e a depressão.

 

A terapia musical também é um tema muito interessante presente neste livro. A utilização da música em contexto clínico, que tem como objetivo ajudar pacientes com problemas de saúde mental.

 

O final é previsível. Algumas pontas foram deixadas soltas, o que me deixou aborrecida. No geral, é uma leitura agradável.

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