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Mente Literária

"A leitura é como uma droga que confere um adormecimento agradável aos contornos da crueldade da vida." Kertész , Imre.

Mente Literária

"A leitura é como uma droga que confere um adormecimento agradável aos contornos da crueldade da vida." Kertész , Imre.

Céu em Fogo, de Mário de Sá-Carneiro

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Pontuação: 3* 

 

Esta é uma obra do escritor Mário de Sá Carneiro, composta por oito contos/novelas.

Não é um livro fácil de ler. A escrita difícil torna a leitura mais lenta, sendo necessária uma grande atenção. Os contos mais longos tornam-se difíceis de acompanhar, como é o caso do primeiro - A Grande Sombra - e do último - Ressurreição.

Os que gostei mais foram o segundo - Mistério - e o sétimo - O Fixador de Instantes.

No entanto, todos eles têm características muito semelhantes. Estados de demência, esquizofrenia ou loucura aparecem constantemente enquadrados. Os sentimentos de ódio do eu, morte e suícidio também são uma constante. A dor e o sentimento de não fazer falta, de ser dispensável aparecem em quase todos.

É difícil não pensar numa biografia, e talvez até seja uma. Ainda para mais se pensarmos que o autor se suicidou logo pelos 26 anos, deixando a vida toda por viver.

As florestas, via-as de algodão em rama, polícromas, com lantejoulas, como os brinquedos de Àrvore de Natal; seriam de água as montanhas; os rios de pedras preciosas, e, sobre eles, em arcos de luar, grandes montes de estrelas.

A Grande Sombra

 

Que desconforto! A sua alma era uma casa enorme, no inverno, com a mobília atravancada, forrada de sarapilheiras, e as janelas abertas por onde o vento se engolfava sibilante... e muito pó, sobretudo muito pó,em grandes rimas de livros e manuscritos.

Mistério

História de Quem Vai e de Quem Fica, de Elena Ferrante

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Pontuação: 5*

 

Este é o terceiro livro da tetralogia maravilhosa escrita por Elena Ferrante de duas amigas - Lenú e Lila - quando chegam à fase adulta da sua vida. As personagens dos livros anteriores cresceram e vivem agora uma vida diferente e cada vez com mais reviravoltas.

A primeira parte do livro fála-nos de uma personagem dedicada e meio adormecida, uma Lenú que acaba por tornar algumas das páginas difíceis de passar. Por sua vez, Lila encontra-se a viver em condições precárias e a trabalhar num local onde as mulheres são exploradas e abusadas pelos patrões.

A meio do livro, a autora apresenta-nos uma Lenú completamente diferente, aventureira e muito mais segura. Algumas das suas ações confundiram-me e fiquei várias vezes sem saber exatamente os sentimentos confusos que esta personagens nos mostrava.

Também Lila muda, com a ajuda de Lenú, voltando as duas amigas a encontrar-se depois de imenso tempo separadas.

É um livro que explora, na perspectiva da época, temas interessantes como a luta de classes e a emancipação da mulher, deixando ainda espaço para abordar o matrimónio e a maternidade da época, a sexualidade e o adultério. Assistimos ainda à contrução dos primeiros computadores e à introdução no mercado da pílula contraceptiva.

Elena Ferrante criou uma trama, personagens e tempo diferente e cruel, mas não menos verdadeira, sobre uma sociedade corrupta onde o machismo ainda prevalecia.

O final é arrebatador, surpreendente e habilmente deixado em aberto pela autora.

 

Personagens preferidas: Enzo Scanno

História do Novo Nome, de Elena Ferrante

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Pontuação: 5*

 

Neste livro ficamos a saber o que aconteceu após o intenso final do primeiro volume. O ritmo de leitura abranda nas primeiras páginas, mas depressa volta ao habitual.

Ao contrário do primeiro, neste livro a Lenú destacou-se mais do que a Lila. Foram muitas as situações em que Lila  demonstrou sentimentos confusos e ações que desiludiram. Tais ações talvez se devam ao facto de, ao contrário da sua amiga, não ter tido a possibilidade de continuar os estudos e assim ter tentado provar - a todos e a ninguém em particular - que conseguiria ser alguém, até mais que Lenú, sem essa ajuda.

Por outro lado, Lenú torna-se numa aluna exemplar e brilhante, procurando sempre afirmar-se perante o bairro onde nasceu e principalmente perante Lila.

Ambas as personagens se dão a conhecer melhor e, embora vivam cada vez mais afastadas, mantêm a amizade que as uniu em pequenas. Revi-me tanto numa como noutra, em várias alturas e situações distintas, não conseguindo escolher uma preferida.

Os locais e as personagens mantêm-se praticamente inalterados, levando-nos novamente a correr as ruas de Nápoles e a reencontrar os habitantes de um dos seus bairros mais pobres.

Elena Ferrante é detentora de uma escrita tão poderosa que nos transmite qualquer tipo de sentimento nas mais variadas situações.

O final é muito mais suave que o do livro anterior, embora no geral seja um livro bastante mais arrebatador e nos leve a pegar com imensa curiosidade no terceiro volume.

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

"A mãe de Rino chama-se Raffaella Cerullo, mas toda a gente a tratou sempre por Lina. Eu não, nunca fiz uso de nenhum desses nomes. Para mim, há quase sessenta anos que é Lila. Se lhe chamasse Lina ou Raffaella, assim de repente, era sinal de que a nossa amizade chegara ao fim."

 

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Pontuação: 5*

 

Este livro foi uma agradável experiência. Não tem um ritmo muito acelerado, mas vai-se tornando cada vez mais interessante.

A Amiga Genial conta a história de duas amigas, Lenú e Lila, que vivem uma amizade conturbada e cheia de altos e baixos. A história começa quando Lila decide desaparecer sem deixar rasto, altura em que Lenú começa um relato vivido muito tempo antes, em meados da década de cinquenta, quando as duas se conheceram. 

"Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má."

Este volume narra a Infância e a Adolescência das duas amigas, do ponto de vista de Lenú.

Como pano de fundo temos Nápoles, terra de nascimento da autora sobre a qual, até há muito pouco tempo, pouco era divulgado. A escrita de Elena Ferrante é maravilhosa e relata, sem reticências, uma sociedade suburbana e cheia de dificuldades, onde os homens mandam, as mulheres, submissas, se resignam a viver a sua vida pelos modos deles e os filhos assistem a um clima de violência, aprendendo desde cedo o chamado ofício da família, trabalhando desde cedo.

Lenú e Lila são duas destas crianças, muito diferentes entre si. Lenú tem a possibilidade de prosseguir os estudos, ao passo que Lila, apesar de ser a mais inteligente da classe, fica apenas com o diploma da primária e começa a ajudar a mãe nos seus afazeres. Lila é diferente das outras crianças, não tem medos e faz apenas aquilo que quer, ao contrário da amiga tímida e medrosa, que procura constantemente a aprovação dos outros.

O final é daqueles que nos desespera e obriga a ir logo buscar o segundo volume, de tão intenso que é.

 

Personagens preferidas: Lila

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

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Ao contrário da maioria dos livros, o grande Gatsby não é narrado pela personagem principal, mas sim por Nick Carraway, vizinho e amigo de Jay Gatsby, que vai descobrindo e desvendando o mundo do protagonista. No geral, este livro retrata a sociedade dos loucos anos 20, a sociedade pós 1ª Guerra Mundial, cheia de festas e rodeada de riquezas e futilidades para tentar esquecer o vazio que se formou. A maioria das personagens são mesquinhas, adúlteras e fúteis, apenas importam as festas e o dinheiro, casamentos por interesse é o mais procurado e o amor é sempre deixado de lado.

Jay Gatsby é um milionário misterioso que dá as mais extravagantes festas na sua enorme mansão, onde aparecem todos os tipos de pessoas. Apesar do seu dinheiro e de estar sempre rodeado de pessoas, Gatsby é muito solitário e fica constantemente à espera de realizar o seu maior sonho - reencontrar e reconquistar a sua antiga namorada Daisy.

Daisy por sua vez não merece nada do que Gatsby faz por ela, tão mesquinha e fútil que é. Tom, o marido, representa o racismo e o adultério, o poder que a riqueza tinha na época.

A mensagem do livro é marcante e mostra-nos que nem todo o dinheiro do mundo é capaz de trazer consigo a felicidade e a concretização dos nossos sonhos mais escondidos. A solidão de Gatsby é um dos pontos mais fortes deste livro, o facto de estar sempre rodeado de pessoas nas extravagantes festas na sua mansão não lhe trouxe nenhum dos verdadeiros companheiros que todos precisamos.

 

Personagens preferidas: Nick Carraway, Jay Gatsby

 

Pontuação: 4*

O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë

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Li este livro para o Clube dos Clássicos Vivos, em Abril. Apesar de ser um livro que muitas opiniões divide, foi para mim uma experiência maravilhosa. É uma viagem espantosa aos recantos da mente humana, cada personagem é caracterizada de uma forma deliciosamente detestável. Não é um romance como os que normalmente se veêm, em que tudo corre bem e acaba bem. É uma história que junta o amor, a vida e personalidades que existem na realidade. Personalidades e comportamentos humanos, espantosamente bem construídas e fiéis a si mesmas, personagens odiáveis pelo simples facto de representarem características reais que se veêm a cada esquina.

Temos Catherine e Heathcliff, dois personagens mesquinhos e egoístas. Heathcliff representa em simultâneo o amor e o ódio, é rancoroso e completamente dominado pelas suas emoções, paixões e sentimentos, o mais instintivo dos personagens. Catherine é simplesmente egoísta, pensa muito na felicidade própria e no interesse próprio, sem se preocupar com aqueles que a rodeiam.

No extremo oposto temos Edgar Linton, o que mais se aproxima daquilo que vemos como o homem comum, o politicamente correto.

Hareton é filho de Hindley (irmão de Catherine e inimigo de Heathcliff) e é completamente o contrário de todas as outras personagens. Ao contrário de todos os outros não é vil nem mesquinho, é humilde e não é tão orgulhoso ao ponto de guardar rancores.

O livro em si fala de vingança, a vingança de Heathcliff para com aqueles que o desprezaram e destruíram. A história é contada por Ellen Dean, a governanta do Monte dos Vendavais, vinte anos depois dos acontecimentos terem lugar, abarcando em simultâneo as duas gerações da história. 

Emily Brontë, na sua espantosa escrita, conseguiu explorar o lado mais negro da natureza humana, e representar as maiores angústias, medos e falhas do ser humano. É um livro que nos mostra que todas as nossas ações têm consequências, quer na nossa própria vida, quer na vida dos nossos filhos ou ainda na vida de terceiros. Heathcliff e Catherine são detestáveis, mas é tão espetacular terem sido os escolhidos para as personagens principais!

 

Pontuação: 5*

Clássicos para Leitores de Hoje

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Bem, sim, eu só me apercebi hoje!

 

«35 Clássicos para Comemorar a Fundação da RA

Ao longo de 2016, a Relógio D’Água vai editar uma coleção de 35 Clássicos para Leitores de Hoje, a preços muito acessíveis, comemorando os anos decorridos desde a sua fundação em 1982.
Os primeiros títulos são «O Monte dos Vendavais» de Emily Brontë (nova tradução de Paulo Faria e prefácio de Hélia Correia), «Sensibilidade e Bom Senso» de Jane Austen (tradução de Paulo Faria), «O Grande Gatsby» de F. Scott Fitzgerald (com tradução de Ana Luísa Faria e prefácio de Anthony Burgess) e «Emma» de Jane Austen (tradução de Jorge Vaz de Carvalho).
Seguem-se, ao ritmo de três títulos por mês, autores como Marcel Proust, Kafka, Tolstoi, Dostoievski, Turgueniev, Machado de Assis, Flaubert, Choderlos de Laclos, Shakespeare, Oscar Wilde, Jane Austen, Dickens, Montaigne, Gogol, Alain-Fournier, Voltaire, Mário de Sá-Carneiro, Stendhal, Tchékhov, Goethe, Virginia Woolf, Eça de Queirós, Joseph Conrad, Edith Wharton, Victor Hugo e Platão.
Parte das traduções desta coleção fazem já parte do catálogo da Relógio D’Água, outras são novas.
A coleção atingirá os cinquenta títulos em meados de 2017, sempre com preços entre 5 e 10 €.
A RA, que publicou já mais de uma centena e meia de clássicos, confirma deste modo a sua vocação de dar a ler autores a quem o tempo não retirou, antes reforçou, a atualidade.»

 

Em Fevereiro saiu O Monte dos Vendavais de Emily Brontë (10€) e este mês O Grande Gatsby de F. Scott-Fitzgerald (7.50€).