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Mente Literária

"A leitura é como uma droga que confere um adormecimento agradável aos contornos da crueldade da vida." Kertész , Imre.

Mente Literária

"A leitura é como uma droga que confere um adormecimento agradável aos contornos da crueldade da vida." Kertész , Imre.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

 

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Madame Bovary critica largamente uma burguesia com comportamentos supérfluos através da nossa protagonista, uma mulher forte que procura alargar os seus horizontes além dos limites do seu casamento.

É um livro dividido em três partes. Na primeira parte, conhecemos Charles, um estudante pouco brilhante que acaba por se tornar num médico também sem grande vocação. Casa-se com Emma e vive uma vida feliz enquanto vai cedendo cada vez mais aos caprichos da sua mulher. Na segunda parte Emma e Charles mudam de cidade e vão-se envolvendo socialmente com algumas pessoas que passam a frequentar a sua casa. Na última parte, os caprichos e pecados dos protagonistas recaem sobre eles e muita coisa é revelada.

Emma é uma mulher que não segue as regras nem percorre o caminho comum de todas as mulheres daquela época. Procura alternativas, não vive sob as ordens de ninguém, não paraliza nem se deixa dominar pelo poder que os homens tendem a ter sobre as mulheres. Emma queria ser quem não era e procurava nos romances que lia a vida que queria para si.

As mulheres são no geral as mais fortes e as personagens mais interessantes deste livro. Os homens são quase todos apresentados como seres mais fracos e sempre submissos aos desejos das mulheres.

O autor demorou anos a concluir a obra e chegou mesmo a ir a julgamento após o seu lançamento por tentar desencaminhar as mulheres de família leitoras de romances através do tema do adultério presente neste livro. Quando lhe perguntaram quem era esta Madame Bovary a resposta que deu ficou conhecida até hoje.

"Madame Bovary, c'est moi"

 

*Esta leitura insere-se na sexta etapa do desafio A Volta ao Mundo em Livros.

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

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Ao contrário da maioria dos livros, o grande Gatsby não é narrado pela personagem principal, mas sim por Nick Carraway, vizinho e amigo de Jay Gatsby, que vai descobrindo e desvendando o mundo do protagonista. No geral, este livro retrata a sociedade dos loucos anos 20, a sociedade pós 1ª Guerra Mundial, cheia de festas e rodeada de riquezas e futilidades para tentar esquecer o vazio que se formou. A maioria das personagens são mesquinhas, adúlteras e fúteis, apenas importam as festas e o dinheiro, casamentos por interesse é o mais procurado e o amor é sempre deixado de lado.

Jay Gatsby é um milionário misterioso que dá as mais extravagantes festas na sua enorme mansão, onde aparecem todos os tipos de pessoas. Apesar do seu dinheiro e de estar sempre rodeado de pessoas, Gatsby é muito solitário e fica constantemente à espera de realizar o seu maior sonho - reencontrar e reconquistar a sua antiga namorada Daisy.

Daisy por sua vez não merece nada do que Gatsby faz por ela, tão mesquinha e fútil que é. Tom, o marido, representa o racismo e o adultério, o poder que a riqueza tinha na época.

A mensagem do livro é marcante e mostra-nos que nem todo o dinheiro do mundo é capaz de trazer consigo a felicidade e a concretização dos nossos sonhos mais escondidos. A solidão de Gatsby é um dos pontos mais fortes deste livro, o facto de estar sempre rodeado de pessoas nas extravagantes festas na sua mansão não lhe trouxe nenhum dos verdadeiros companheiros que todos precisamos.

 

Personagens preferidas: Nick Carraway, Jay Gatsby

 

Pontuação: 4*

O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë

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Li este livro para o Clube dos Clássicos Vivos, em Abril. Apesar de ser um livro que muitas opiniões divide, foi para mim uma experiência maravilhosa. É uma viagem espantosa aos recantos da mente humana, cada personagem é caracterizada de uma forma deliciosamente detestável. Não é um romance como os que normalmente se veêm, em que tudo corre bem e acaba bem. É uma história que junta o amor, a vida e personalidades que existem na realidade. Personalidades e comportamentos humanos, espantosamente bem construídas e fiéis a si mesmas, personagens odiáveis pelo simples facto de representarem características reais que se veêm a cada esquina.

Temos Catherine e Heathcliff, dois personagens mesquinhos e egoístas. Heathcliff representa em simultâneo o amor e o ódio, é rancoroso e completamente dominado pelas suas emoções, paixões e sentimentos, o mais instintivo dos personagens. Catherine é simplesmente egoísta, pensa muito na felicidade própria e no interesse próprio, sem se preocupar com aqueles que a rodeiam.

No extremo oposto temos Edgar Linton, o que mais se aproxima daquilo que vemos como o homem comum, o politicamente correto.

Hareton é filho de Hindley (irmão de Catherine e inimigo de Heathcliff) e é completamente o contrário de todas as outras personagens. Ao contrário de todos os outros não é vil nem mesquinho, é humilde e não é tão orgulhoso ao ponto de guardar rancores.

O livro em si fala de vingança, a vingança de Heathcliff para com aqueles que o desprezaram e destruíram. A história é contada por Ellen Dean, a governanta do Monte dos Vendavais, vinte anos depois dos acontecimentos terem lugar, abarcando em simultâneo as duas gerações da história. 

Emily Brontë, na sua espantosa escrita, conseguiu explorar o lado mais negro da natureza humana, e representar as maiores angústias, medos e falhas do ser humano. É um livro que nos mostra que todas as nossas ações têm consequências, quer na nossa própria vida, quer na vida dos nossos filhos ou ainda na vida de terceiros. Heathcliff e Catherine são detestáveis, mas é tão espetacular terem sido os escolhidos para as personagens principais!

 

Pontuação: 5*

Lolita, de Vladimir Nabokov

"Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes, era Lo, apenas Lo. De calças práticas era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita."

 

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Lolita, um clássico, muito polémico, que nos traz o romance entre Humbert Humbert, um professor europeu, e Dolores Haze, uma menina de 12 anos.

O livro é dividido em duas partes.

A primeira parte foca-se inicialmente na história de Humbert e no que se passou com ele até conhecer Lolita. Ainda na primeira parte, ele conhece e apaixona-se por Dolores ao ir viver como inquilino para a casa da mãe desta, uma mulher que só pensa no seu próprio bem e nos seus sentimentos, preocupando-se muito pouco com a filha. Entretanto, o romance entre eles começa e vai evoluindo devagar, até que Lolita vai para um acampamento do colégio e Humbert é obrigado a ficar afastado da pequena.

Na segunda parte as coisas mudam totalmente. Humbert passa a estar com Lolita a tempo inteiro e a relação deles vai-se revelando cada vez mais.

É de ressaltar a escrita do autor, a forma incrível como as palavras se juntam e como ele consegue transmitir-nos exatamente o que pretende. Nabokov destaca-se principalmente pela sua audácia ao falar de um assunto tão polémico, sem que isso se torne desconfortável.

Pedófilia ou amor? A grande questão deste livro, que tantas opiniões divide. A narrativa de Nabokov consegue sempre dar um toque diferente às coisas, no entanto, existem várias partes do livro fortes e dificeis de digerir. A interação entre os dois protagonistas é o ponto focal da história e também o que nos agarra mais ao livro - ou talvez o contrário.

Humbert, se é por um lado um completo pedófilo pervertido, por outro ama Lolita e não procura apenas prazer nela. Dolores, apesar de ser uma menina, sabe bem que tem Humbert na mão e aproveita-se um pouco disso.

Só com a leitura deste grande livro se consegue ter uma noção de todos os pontos de vista.

 

Pontuação: 4*